O País das Lógicas Invertidas
Meus amigos mais próximos já conhecem a minha tão propalada admiração pelos Estados Unidos, onde mais uma vez estive durante as últimas duas semanas. Depois de um banho de cultura, civilidade e educação, devo confessar que o choque pela volta ao Brasil ainda perdura, mesmo depois de inúmeras viagens para a Terra do Tio Sam ao longo de toda a minha vida. Aos mais críticos, vale desde já a ressalva de que lá como cá, eles também padecem de alguns grandes problemas e chagas sociais.
No entanto, como em todos os países que visito, prefiro sempre concentrar a minha atenção aos pilares de construção daquela nação específica, onde me deparo sempre com a explicação mais que contundente para a busca dos porquês dos imensos abismos existentes entre duas nações tão ricas e abençoadas como Estados Unidos e Brasil. A explicação mais óbvia repousa sobre a Educação. Os Estados Unidos da América investiram, investem e continuarão investindo vigorosamente em sua Educação. Por outro lado, o Brasil nunca investiu, investe pouco e pouco investirá em Educação nos anos e décadas futuras.
Desta causa aparentemente simples, podemos extrair uma série de explicações para as principais pragas que contaminam o nosso tão querido e amado País, dentre elas a corrupção, a violência e os inaceitáveis abismos sócio-econômicos que hoje nos deparamos. Lá nos EUA, onde também existe corrupção, mas em níveis absurdamente inferiores aos praticados nesta República de Bananas, as penas são firmes, fortes e efetivamente cumpridas pelos réus. Já aqui, a lógica é inversa. Se um político rouba e usa dos meios mais sórdidos para enriquecer, o que acontece? Nada! Muito ao contrário, eles se tornam ainda mais fortes, visíveis e incólumes. Exemplos: Lula, Maluf, Collor, Sarney, Dirceu, Renan etc etc etc etc.
Se lá, o absurdo envolvimento de um Governador com prostitutas já provoca a imediata renúncia do homem público, aqui quanto maior o crime melhor. Melhor para o político e pior para o povo! Acompanhei de perto o desenrolar da prisão de Dantas & Cia. Daniel Dantas representa o lado mais sombrio do empresariado brasileiro, que enriqueceu única e exclusivamente às custas dos bastidores imundos da política nacional, onde negociatas, propinas, informações privilegiadas e muita influência política "behind the scenes" em todas as instâncias da administração pública dão lugar às negociações éticas e verdadeiramente orientadas à plena satisfação do interesse público. Políticos de todos os partidos viram-se de cabelos em pé diante da possibilidade de um Dantas acuado abrir o bico. Delegados da PF foram prontamente afastados. "Habeas Corpus" foram rapidamente aceitos pela instância máxima de nossa Justiça, o STF, em um claro desrespeito ao rito normal que nós cidadãos comuns estamos sujeitos nesta terra, onde a Justiça pode ser cega, mas de tonta e lenta nos casos que mais interessam aos abutres que hoje nos comandam não têm absolutadamente nada.
Houve até flagrante de um dos mandatários de Dantas com mais de R$ 1 milhão para oferecer em propina para os Delegados. Mas, neste País governado por um Presidente pouco letrado e muito esperto, "apenas" isso não serve para incriminar ningúem. Neste País, onde homens públicos assaltam os cofres públicos numa velocidade somente comparável à velocidade e ferocidade que a Receita Federal nos asfixia mensalmente, nada serve para colocar atrás das grades um destes ladrões graúdos e que merecem passar todos os dias que restam de suas vidas enjaulados.
Neste País das Lógicas Invertidas, onde quando mais se rouba melhor, não se pode adquirir um veículo decente e com requisitos mínimos de segurança como um Air Bag e um ABS, sem que se tenha que pagar inacreditáveis 40% em impostos para este governo apetitoso e sem vergonha. Já nos Estados Unidos, se você trabalha bem, você vive bem e igualmente paga impostos elevados. A diferença é que, como em qualquer país educado, a lógica prevalece, ou seja, se pagamos muitos impostos, podemos usufruir na contrapartida de serviços públicos de qualidade e acessíveis a todos. Já aqui, muito embora se perceba um incremento constante dos impostos arrecadados, os serviços públicos que teriam que ser (mas não são!) oferecidos, são cada vez piores e mais rarefeitos.
Nos países desenvolvidos, o salário médio pago ao trabalhador é muito superior aos ganhos do trabalhador brasileiro, onde para cada real ganho, o governo abocanha outro para si em virtude principalmente de uma Legislação Trabalhista antiquada, ultrapassada e incoerente com os interesses de um país que pretende crescer a taxas comparáveis aos demais componentes do BRIC. Novamente deparamo-nos com mais uma lógica inversa, ou seja, se hoje o Governo fica com quase metade da riqueza que aqui é produzida, espera-se pela lógica que este mesmo Governo nos ofereça serviços públicos adequados, que disponha de uma Previdência Social absurdamente forte e monetizada e que invista volumosos recursos na Educação, principalmente nos Estados mais carentes da Nação. Dos três aqui citados, sabemos que nenhum corresponde à realidade, o que me faz ter cada vez mais ter a certeza de que o Brasil é de fato singular e único, especialmente no que se refere às nossas "lógicas tupiniquins".
Abraços a todos!
José Ricardo B. Noronha
Escrito por José Ricardo Noronha às 19h49
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