Um caipira infiltrado entre os grandes empresários brasileiros
Semana passada tive a oportunidade de participar do Congresso da Indústria 2008, promovido pela FIESP tendo como tema "A Competitividade da Indústria no Século XXI". Evento de proporções maiúsculas em todas as suas facetas: local suntuoso, participantes de peso e temas prá lá de atuais e polêmicos. Na parte da manhã, que eu infelizmente não pude participar, a Mesa Redonda abordou a tão batida e necessária Reforma Tributária e seus Aspectos Econômicos e Jurídicos, tendo como principais debatedores os deputados Antonio Palocci (Presidente da Comissão da Reforma Tributária), Arlindo Chinaglia (Presidente da Câmara dos Deputados) e Sandro Mabel (Relator da Proposta de Emenda Constitucional da Reforma Tributária), os senadores Arthur Virgílio (um dos poucos que ainda representam com veemência a tão fatídica Oposição Brasileira) e Garibaldi Alves Filho (Presidente do Senado Federal) e alguns Empresários cujos sobrenomes dispensam maiores apresentações onde pontuavam dentre outros Jorge Gerdau Johanpetter e José Antonio Fernandes Martins (Marcopolo).
Pelo que pude ouvir de vários participantes, a Mesa Redonda da parte da manhã foi prá lá de apimentada, onde principalmente os Deputados Palocci e Mabel (sim, os dois que neste País sem memória estiveram envolvidos até os dentes com alguns dos maiores escândalos do Governo Lula) foram bombardeados pela cúpula empresarial paulista, em virtude da recente e ridícula aprovação pela Câmara dos Deputados desta contribuição indecente chamada CSS (Contribuição Social para a Saúde). Com a tarimba e experiência adquiridas nos longos anos de vida pública, Mabel e Palocci, que outrora se viam pressionados de todos os lados pela Sociedade e pelo Congresso tratando de temas muito mais espinhosos como Mensalão e o meretrício particular mantido na Capital Federal (lembram-se do Francenildo?), não se sentiram em momento algum acuados e fizeram uma defesa contundente da "profunda necessidade" da aprovação deste imposto, que pode vir a ocupar o lugar da tão indesejável CPMF.
Com chumbo grosso em cima deles, Palocci & Cia foram a voz ressonante em um uníssono contra a CSS. A FIESP, representada por seu Presidente Paulo Skaf, que atuou com muita força à época da derrubada da CPMF, pronunciou-se de forma contundente contra este Imposto que é inconstitucional desde sua origem. De qualquer forma, como estamos no País onde tudo é possível, até aumentar impostos em consonância com o inaceitável aumento dos gastos públicos, Mabel e Palocci fizeram bem seu papel de defensores de um governo corrupto e muito pouco ou quase nada alinhado com as expectativas de uma sociedade mais do que sufocada por uma carga tributária inaceitável. Aliás, vejam a matéria da própria FIESP, sobre a nova cruzada proposta por Paulo Skaf: http://www.fiesp.com.br/agencianoticias/2008/06/12/skaf-cruzada-contra-css.ntc.
A parte da tarde foi igualmente recheada de grandes figuras públicas e empresariais, onde merecem destaque do lado público os Ministros da Defesa Nelson Jobim (outro craque em se encaixar bem em qualquer governo), o Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Miguel Jorge e o Presidente do BNDES Luciano Coutinho dentre outros, e do lado privado, Frederico Curado (Presidente da Embraer), José Roberto Ermírio de Moraes (Presidente da Votorantim Industrial) e Josué Christiano Gomes da Silva (Presidente da Coteminas) dentre outros empresários igualmente graúdos. Em uma Mesa Redonda morna demais (talvez pelo fato de ter como moderador o Embaixador Sérgio Amaral, que foi porta voz de FHC), os empresários debateram a Política Industrial.
A própria FIESP em seu site concorda com a posição do vendedor caipira que aqui compartilha seu ponto de vista com seus poucos leitores e muitos amigos. De qualquer forma, a leitura do aspirante a cronista é de que de fato a nova Política Industrial traz avanços indiscutíveis especialmente pela presença de Miguel Jorge, que traz consigo décadas de experiência como alto executivo de gigantes como Volkswagen e Santander. Todos os empresários que faziam parte da Mesa concordaram que a Política Industrial recém formulada é uma das mais modernas e completas já feitas no País. No entanto, todos foram unânimes ao afirmar que ainda há um gap gigantesco entre o que se prega na teoria (PDP - Política de Desenvolvimento Produtivo) e o que se presencia na prática. Um empresário bastante exaltado (com razão) pediu a palavra e compartilhou com todos os problemas enfrentados por alguém que tem nas importações o seu carro chefe e que a despeito de pagar rigorosamente todos os impostos em dia, não consegue em virtude das constantes greves da Receita Federal receber seus pedidos em dia, o que gera um problema em cadeia gigantesco, onde ele fica com a maior parte do prejuízo. Outra empresária igualmente exaltada questionou (com correção) os critérios para concessão de lavras no País, onde poucos têm acesso ao "mapa da mina" e conseguem desta forma enriquecer-se de forma espantosamente rápida (alusão ao novo bilionário Eike Batista, cujo pai foi durante muitos anos Presidente da ainda estatal CVRD).
De qualquer forma, o caipira e nada graúdo empresário que aqui lhes escreve pôde perceber que há uma relação deveras interessante entre o alto empresariado brasileiro e a cúpula governista, em especial a que cuida do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. É uma relação de "bate e assopra", pois há um temor muito grande especialmente por parte do empresariado de que a ortodoxia lulista na forma de gerenciar a economia e que os permitiu atingir os ganhos tão sonhados dê lugar à alopragem geral dos desenvolvimentistas que pregam o crescimento econômico a qualquer custo (baixa dos juros, metas de controle de inflação incipientes etc). De um lado os empresários chiam da elevada carga tributária, de outro aplaudem a nova Política Industrial. E o Governo nisso tudo? Ora, o Governo continua fazendo o que fez desde o primeiro dia do Governo Lula: navega em um mar de tranquilidade, onde todas as bases econômicas defendidas e criadas por FHC e sua turma foram mantidas.
Um grande abraço a todos!
José Ricardo B. Noronha
Escrito por José Ricardo Noronha às 21h54
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