Luciano Huck e Rogério Ceni não são irmãos
Luciano Huck e Rogério Ceni não são irmãos. Aliás, a despeito das profundas semelhanças físicas, Ceni e Huck não têm laços familiares que os unam.
Luciano Huck é um dos mais bem sucedidos apresentadores da TV brasileira. Rogério Ceni é um dos mais bem sucedidos atletas de futebol da atualidade. O primeiro é alvo de recente polêmica, criada em torno de um texto / desabafo que fora por ele publicado no Jornal "Folha de São Paulo" (vejam abaixo). O segundo é alvo constante de polêmicas, todas elas sem sombra de dúvidas ligadas à sua condição intelectual diferenciada e às já tão propaladas "prepotência" e "arrogância", características que lhe foram imputadas por parte da imprensa futebolística e por parte de torcedores contrários ao São Paulo Futebol Clube.
E é aqui que encontrei mais um grande traço que os une. Ambos são polêmicos, por serem diferentes, bem sucedidos e acima de tudo detentores de consistentes opiniões acerca de tudo o que os envolve.
Luciano Huck foi assaltado semana passada nos Jardins, e desabafou na "Folha de São Paulo", externando toda a sua indignação com o estado de coisas que hoje impera em nosso País. A reação estapafúrdia de parte da imprensa e de muitos outros brasileiros condenando-o, foi um "banho de água fria" naqueles que como eu, acreditam que não podemos aceitar passivamente que as regras do mundo cão preponderem sobre os direitos que nos são "assegurados" pela nossa Constituição Federal.
Rogério Ceni, uma espécime rara de enorme talento e que ainda desfila sua técnica pelos gramados brasileiros, é constantemente "punido" ao não ser convocado para a Seleção Brasileira e também é "execrado" por parte da imprensa por ser diferente, por ter opinião formada e por acima de tudo ser um ponto absolutamente fora da curva da mediocridade e lama que hoje imperam no futebol brasileiro.
Não há nada de errado no fato de Luciano Huck e Rogério Ceni ganharem somas astronômicas em um país tão carente como o nosso. Frise-se, NADA!!! O que é errado é condenarmos os dois pelo fato de ambos terem tido acesso à uma educação de qualidade e aos dons de Deus que os permitiram alcançar o sucesso, o reconhecimento, a fama e a fortuna amealhados até agora.
O que é errado é valorizarmos a ignorância. O que é errado é ficarmos quietos diante de tantos desmandos. O que é errado é nos prostrarmos de forma patética diante de toda esta quadrilha que hoje comanda o Brasil. O que é errado é valorizarmos os criminosos!
Respeito a opinião daqueles que divergem do meu ponto de vista acerca do talento nato de Huck e Ceni para o desempenho de suas respectivas habilidades. No entanto, não posso respeitar aqueles que crucificam Huck e Ceni pelas fortes opiniões que os caracterizam. E, acima de tudo, não posso respeitar aqueles que começam a enxergar grandes virtudes nos criminosos.
Ah ... e para completar: isso não tem nada a ver com a minha paixão pelo São Paulo Futebol Clube. Aliás, Luciano Huck é corinthiano fanático e deve estar feliz da vida com a merecida vitória do seu time sobre o meu ontem! :-(
Abraços a todos!
José Ricardo Noronha
Pensamentos quase póstumos
LUCIANO HUCK
Pago todos os impostos. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa
| LUCIANO HUCK foi assassinado. Manchete do "Jornal Nacional" de ontem. E eu, algumas páginas à frente neste diário, provavelmente no caderno policial. E, quem sabe, uma homenagem póstuma no caderno de cultura. Não veria meu segundo filho. Deixaria órfã uma inocente criança. Uma jovem viúva. Uma família destroçada. Uma multidão bastante triste. Um governador envergonhado. Um presidente em silêncio. Por quê? Por causa de um relógio. Como brasileiro, tenho até pena dos dois pobres coitados montados naquela moto com um par de capacetes velhos e um 38 bem carregado. Provavelmente não tiveram infância e educação, muito menos oportunidades. O que não justifica ficar tentando matar as pessoas em plena luz do dia. O lugar deles é na cadeia. Agora, como cidadão paulistano, fico revoltado. Juro que pago todos os meus impostos, uma fortuna. E, como resultado, depois do cafezinho, em vez de balas de caramelo, quase recebo balas de chumbo na testa. Adoro São Paulo. É a minha cidade. Nasci aqui. As minhas raízes estão aqui. Defendo esta cidade. Mas a situação está ficando indefensável. Passei um dia na cidade nesta semana -moro no Rio por motivos profissionais- e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres. Onde está a polícia? Onde está a "Elite da Tropa"? Quem sabe até a "Tropa de Elite"! Chamem o comandante Nascimento! Está na hora de discutirmos segurança pública de verdade. Tenho certeza de que esse tipo de assalto ao transeunte, ao motorista, não leva mais do que 30 dias para ser extinto. Dois ladrões a bordo de uma moto, com uma coleção de relógios e pertences alheios na mochila e um par de armas de fogo não se teletransportam da rua Renato Paes de Barros para o infinito. Passo o dia pensando em como deixar as pessoas mais felizes e como tentar fazer este país mais bacana. TV diverte e a ONG que presido tem um trabalho sério e eficiente em sua missão. Meu prazer passa pelo bem-estar coletivo, não tenho dúvidas disso. Confesso que já andei de carro blindado, mas aboli. Por filosofia. Concluí que não era isso que queria para a minha cidade. Não queria assumir que estávamos vivendo em Bogotá. Errei na mosca. Bogotá melhorou muito. E nós? Bem, nós estamos chafurdados na violência urbana e não vejo perspectiva de sairmos do atoleiro. Escrevo este texto não para colocar a revolta de alguém que perdeu o rolex, mas a indignação de alguém que de alguma forma dirigiu sua vida e sua energia para ajudar a construir um cenário mais maduro, mais profissional, mais equilibrado e justo e concluir -com um 38 na testa- que o país está em diversas frentes caminhando nessa direção, mas, de outro lado, continua mergulhado em problemas quase "infantis" para uma sociedade moderna e justa. De um lado, a pujança do Brasil. Mas, do outro, crianças sendo assassinadas a golpes de estilete na periferia, assaltos a mão armada sendo executados em série nos bairros ricos, corruptos notórios e comprovados mantendo-se no governo. Nem Bogotá é mais aqui. Onde estão os projetos? Onde estão as políticas públicas de segurança? Onde está a polícia? Quem compra as centenas de relógios roubados? Onde vende? Não acredito que a polícia não saiba. Finge não saber. Alguém consegue explicar um assassino condenado que passa final de semana em casa!? Qual é a lógica disso? Ou um par de "extraterrestres" fortemente armado desfilando pelos bairros nobres de São Paulo? Estou à procura de um salvador da pátria. Pensei que poderia ser o Mano Brown, mas, no "Roda Vida" da última segunda-feira, descobri que ele não é nem quer ser o tal. Pensei no comandante Nascimento, mas descobri que, na verdade, "Tropa de Elite" é uma obra de ficção e que aquele na tela é o Wagner Moura, o Olavo da novela. Pensei no presidente, mas não sei no que ele está pensando. Enfim, pensei, pensei, pensei. Enquanto isso, João Dória Jr. grita: "Cansei". O Lobão canta: "Peidei". Pensando, cansado ou peidando, hoje posso dizer que sou parte das estatísticas da violência em São Paulo. E, se você ainda não tem um assalto para chamar de seu, não se preocupe: a sua hora vai chegar. Desculpem o desabafo, mas, hoje amanheci um cidadão envergonhado de ser paulistano, um brasileiro humilhado por um calibre 38 e um homem que correu o risco de não ver os seus filhos crescerem por causa de um relógio. Isso não está certo.
LUCIANO HUCK, 36, apresentador de TV, comanda o programa "Caldeirão do Huck", na TV Globo. É diretor-presidente do Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias.
Escrito por José Ricardo Noronha às 18h22
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