Incitatus e Bebel
Josué Maranhão
BOSTON – Incitatus, o cavalo que ficou famoso na história, quando foi nomeado Senador, no Império Romano, poderia e deveria renascer para ocupar uma cadeira no Senado Federal brasileiro.
Em Roma, a desmoralização do Senado ficou marcada, quando o imperador Calígula nomeou o seu cavalo Senador. E ainda mais: o fez acompanhado por séqüito de servos, como naquele tempo eram apelidados o que hoje chamam de Assessores.
Tivesse o Brasil alguém com os poderes (e a insanidade) de Calígula, certamente poderia haver um cavalo sentado no plenário do seu Senado Federal.
A ousadia, todavia, não chegou a tanto. Mas a desmoralização do Senado brasileiro atingiu nível tão elevado, que se tornou cenário de deboche e achincalhe em uma novela de televisão.
Na encenação jocosa e satírica encaixada no folhetim televisivo, certamente o seu autor temeu represálias e refreou a ousadia. Assim não fosse, certamente, ao contrário de colocar a prostituta Bebel na tribuna, como testemunha, a teria nomeado senadora da República. Fosse a personagem travestida de Senadora, a paródia com a história de Incitatus, o cavalo de Calígula, seria mais evidente como retrato da desmoralização.
A presença marcante do Senado Federal, no entanto, ficou bem destacada quanto Bebel se vangloriou de ser prostituta “fixa e exclusiva” de um Senador, mantida por um usineiro, como deixaram transparecer na inquirição a que foi submetida no cenário que reproduzia o plenário do Senado da República. Será que a arte imita a vida?
Não houve a preocupação em avisar, como é usual, que “qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência”. Não o é. Foi apenas uma imitação bufa da vida real que vem enlameando a história do Senado brasileiro.
Depois dos escândalos escabrosos, resultado da corrupção que campeia, com um senador tendo suas despesas com a amante pagas por uma empreiteira, instituindo as boiadas voadoras e, apesar disso, merecendo a absolvição, além de outras aberrações e imoralidades, não há onde se enterrar a imagem do Senado brasileiro.
As travessuras da realidade atual desmoralizam a história de uma casa parlamentar que já abrigou figuras como Rui Barbosa, Afonso Arinos de Melo Franco, Santiago Dantas, Darci Ribeiro, Franco Montoro e alguns outros que, diferentemente do que ocorre na atualidade, deixaram marcas evidentes de honradez, seriedade, inteligência e compostura.
Onde estiverem, certamente, postularão a exclusão dos seus nomes da história do Senado do Brasil. Dessa forma tentarão evitar que sejam conspurcados com as comparações com os sarneys, os collores, os renans, os limas e tantos outros que chafurdam na lama e fazem respingar marcas indeléveis nas imagens de homens ilustres e honestos.
A depravação de hábitos e costumes é a característica de uma maioria irresponsável, onde se sobressaem também os azeredos, instituidores de mais um esquema de corrupção, estruturado nos saques aos cofres públicos.
O esboço que a realidade mostra, atualmente, é assemelhado a um mercado de venda e compra de consciências. Tem a estrutura de um bordel, envolvendo, de um lado, alguns senadores da República e, do outro, figuras do governo, que negociam nomeações e verbas, fontes de mais corrupção e desmoralização do Senado da República.