Vou-me embora pra Murici
O escândalo da absolvição de Renan Calheiros foi o ato derradeiro de um processo que culminou com uma das mais difíceis tomadas de decisão da minha vida. Vou embora do Brasil!!
Sim amigos e amigas, estou de partida. Mas não fiquem tristes, pois irei para uma terra encantada, onde as mentiras não existem, onde a verdade sempre prevalece e onde, acima de tudo, a honra e a dignidade humanas são tratadas com a leveza e agilidade das balas dos revólveres e espingardas dos jagunços da Família Calheiros.
Vou-me embora pra Murici
Lá sou amigo do Rei (e de toda a família Calheiros também)
Lá tenho a mulher que eu quero (não apenas a curvilínea Mônica Veloso)
Na cama que escolherei (imagino que lá a poligamia seja celebrada!)
Vou-me embora pra Murici Vou-me embora pra Murici Aqui eu não sou feliz (e além de tudo não tenho mais esperança de que tudo isso irá mudar um dia) Lá a existência é uma aventura (o que vale é a política da bala e dos jagunços, o que deve ser deveras emocionante!)
Em Murici tem tudo É outra civilização Tem açougue que compra milhões de toneladas de carne Tem obras superfaturadas
Tem primo, tem irmão, tem filho
Enfim, é uma só família que manda por aquelas paradas
E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar
Lembrar-me ei que lá pelo menos estou livre do Lula — Lá sou amigo do rei —
Vou-me embora pra Murici
Ironias à parte, preciso desculpar-me diante de todos vocês por pegar emprestado o célebre texto de Manuel Bandeira ("Vou me embora prá Pasárgada"), para a crônica de hoje.
Ontem, eu estava no caótico trânsito de São Paulo quando ouvi via CBN a estarrecedora notícia de que Renan havia sido absolvido pelos seus pares no Senado Federal, em uma sessão mais do que secreta, onde a única certeza foi a de que o PT e seus Senadores fizeram exatamente o que se espera dos seguidores deste molusco nefasto que hoje lidera o nosso País: lideraram o movimento pela absolvição do poderoso Renan, seja votando pela absolvição ou simplesmente como fez um dos senadores de São Paulo (Aloizio Mercadante) abstendo-se da votação. Que beleza Mercadante, é isso o que São Paulo esperava de você!!!!
No final de semana que passou, lá na minha cidade natal (a bela São João da Boa Vista), ouvi de um grande amigo meu (o Cesinha) uma frase que em muito reflete o nosso estado de espírito diante de tantos escândalos em série: perdemos a nossa capacidade de revolta coletiva! Cadê os caras-pintadas? Cadê os movimentos Fora Lula? Cadê os trabalhadores insurgindo-se de verdade contra esta política tributária absurda?
Sim, amigos e amigas, cadê o Zé Ricardo, cadê o Cesinha, cadê a Maria, cadê o João, que no final das contas são as pessoas que podem mudar tudo isso? Estamos todos circunscritos à nossa revolta pessoal, à nossa indignação pessoal, sem em momento algum preocuparmo-nos em fomentar um espírito coletivo que poderá nos levar novamente às ruas para demonstrarmos de forma uníssona a nossa revolta diante disso tudo.
Vou-me embora pra Murici!!!
José Ricardo B. Noronha
Escrito por José Ricardo Noronha às 11h16
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